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Série documental retrata luta do povo Suruí pela preservação de sua identidade na TV pública

Série 'Gente de Verdade' acompanha trajetória dos Suruí e destaca protagonismo de indígenas no audiovisual

22/04/2026 às 21:21
Por: Redação

O projeto audiovisual Gente de Verdade, composto por uma série documental protagonizada por indígenas, foi um dos contemplados pela chamada pública Seleção TV Brasil. A obra acompanha o esforço do povo Paiter Suruí, localizado na Amazônia brasileira, na preservação de sua memória e identidade diante das mudanças vividas pela comunidade nas últimas décadas.

 

Integrando o grupo de produções selecionadas pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC) com recursos provenientes do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), a série foi escolhida em fevereiro entre os 39 projetos aprovados no edital Seleção TV Brasil. As produções contratadas somam um investimento de 109.889.224,78 reais, considerado o maior valor já destinado pelo Estado brasileiro ao desenvolvimento de conteúdo audiovisual voltado à televisão pública.

 

A iniciativa está inserida no Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), promovido pelo Ministério da Cultura (MinC) em parceria com a Agência Nacional do Cinema (Ancine).

 

Gente de Verdade foi selecionada na categoria Sociedade e Cultura, que abrange outras sete obras. A narrativa tem como cenário a terra indígena Sete de Setembro, situada entre Rondônia e Mato Grosso, onde a população Paiter Suruí mantém sua existência. O primeiro contato desse povo com não indígenas ocorreu há pouco mais de 50 anos, fato que desencadeou profundas transformações sociais, religiosas e linguísticas na comunidade.

 

Dentre as mudanças enfrentadas, práticas tradicionais foram reduzidas, igrejas passaram a ocupar o espaço de pajés, rituais ancestrais vêm sendo abandonados e a língua Tupi Mondé, originária do grupo, se encontra ameaçada pelo desuso entre as gerações mais jovens.

 

A série documental acompanha quatro personagens principais, pertencentes a três gerações distintas: Ubiratan, Agamenon, Celesty e Kennedy. O enredo mostra o empenho desses indivíduos em manter a identidade Suruí frente às influências do cristianismo, à urbanização e à presença de novas tecnologias. Ao longo dos oito episódios, cada um com 26 minutos de duração, temas como ancestralidade, pertencimento e o confronto entre tradição e modernidade são explorados.

 

Um dos diferenciais da obra é o fato de ser conduzida e narrada pelos próprios indígenas, proporcionando uma perspectiva interna sobre a realidade do povo Suruí. O enredo é impulsionado pela descoberta de um acervo visual produzido por um fotógrafo alemão durante o primeiro contato da comunidade com não indígenas nos anos 1970. Esse conjunto de imagens serve de base para um debate sobre memória, espiritualidade e identidade, levantando questões sobre a possibilidade de resgatar fotografias sem infringir crenças religiosas ou tradições que vetam até mesmo a menção aos mortos.

 

Antonia Pellegrino, presidente da EBC, coordenou a Seleção TV Brasil enquanto atuava como diretora de Conteúdo e Programação. Ela destaca que o projeto Gente de Verdade teria potencial para conquistar qualquer edital, mas os realizadores optaram pela inscrição no certame da TV Brasil, priorizando a exibição em uma emissora pública.

 

“Esse gesto reforça a relevância da comunicação pública para dar visibilidade a vozes historicamente silenciadas. É um projeto potente que posiciona no centro histórias que por muito tempo foram invisibilizadas e que dá protagonismo a quem vive essas experiências. A série amplia o olhar sobre os povos indígenas com sensibilidade e profundidade, a partir da força do audiovisual em provocar reflexão e ampliar a compreensão sobre diferentes realidades”, comenta.


 

Indígenas assumem direção e roteiro da obra

 

O protagonismo indígena é um dos pontos centrais da produção de Gente de Verdade. A direção é de Ubiratan Suruí, cineasta pertencente ao próprio povo retratado, enquanto o roteiro foi elaborado por Natália Tupi, que atua como cineasta e fotógrafa indígena. Todo o processo de construção narrativa é desenvolvido a partir da experiência direta nos territórios Suruí.

 

Segundo o diretor Ubiratan Suruí, o fato de indígenas conduzirem a produção garante autenticidade e coloca os próprios povos no centro das narrativas, superando representações externas.

 

Gente de Verdade nasce do nosso próprio olhar. Por muito tempo, as histórias sobre os povos indígenas foram contadas por outros, de fora. Aqui, não. Somos nós que contamos. Quando a gente coloca nossas próprias narrativas no centro, a gente fortalece nossa autonomia, nossa identidade e mostra a diversidade que existe entre os nossos povos. São histórias reais, de agora, longe dos estereótipos. A gente se apresenta como realmente é: povos vivos, com voz, com pensamento, com futuro — não como personagens do passado.”, ressalta.


 

Ubiratan Suruí também enfatiza que a exibição de uma obra indígena na TV Brasil representa um avanço importante, por ser um canal público de abrangência nacional, ampliando a oportunidade para que mais brasileiros conheçam as histórias dos povos originários.

 

“Ver uma obra indígena sendo exibida na TV Brasil é um avanço muito importante. Por ser um canal público e de alcance nacional, abre espaço para que mais pessoas conheçam nossas histórias. Isso ajuda a criar diálogo, respeito e reconhecimento. Quando a gente ocupa esse espaço, a gente quebra a invisibilidade e faz com que o Brasil escute, de verdade, as vozes dos povos originários”, complementa Suruí.


 

Acervo histórico inspira exposição e debate

 

No ano anterior, o Instituto Moreira Salles (IMS) organizou em São Paulo a mostra “Paiter Suruí, Gente de Verdade”, reunindo cerca de 800 imagens capturadas desde a década de 1970, quando as primeiras câmeras chegaram à Terra Indígena Sete de Setembro. A exposição, disponível no site do IMS, apresenta um panorama das histórias, tradições, afetos, cotidiano e processos de resistência vividos pelo povo Paiter Suruí.

 

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