A Cooperativa de Catadores Autônomos de Papel, Aparas e Materiais Reaproveitáveis, conhecida como Coopamare, localizada sob o Viaduto Paulo VI, em Pinheiros, na cidade de São Paulo, foi notificada pela Prefeitura para deixar o imóvel que ocupa há mais de 37 anos.
O aviso, emitido em 31 de março, refere-se a um auto de fiscalização datado de 18 de março, onde a administração municipal afirma que a ocupação do terreno de 675 metros quadrados seria considerada irregular por conta de invasão. A Coopamare, reconhecida por ser a mais antiga cooperativa de reciclagem de materiais em funcionamento no país, apresentou sua defesa em 2 de abril, dentro do prazo de 15 dias concedido para manifestação.
A Prefeitura de São Paulo revogou em 2023 a permissão de uso do local, justificando a medida pela necessidade de proteção do patrimônio público e alegando que a estrutura apresentava risco de incêndio. A administração municipal, procurada para comentar o caso, não encaminhou resposta até o encerramento da apuração.
Carla Moreira de Souza, presidente da Coopamare, relatou que, após a revogação, a cooperativa iniciou um diálogo com o poder público. Segundo ela, foi firmado o compromisso de buscar um espaço apropriado para a transferência da operação.
“Estamos aqui há 37 anos. Aceitamos ir para outro lugar, desde que seja um galpão onde tenhamos condições de continuar trabalhando. A prefeitura nos oferece outro viaduto, mas o espaço é pequeno e não dá para levar nossas coisas".
A dirigente reforçou ainda:
"Não queremos ir para outro viaduto. Nossa expectativa hoje é a de que ela nos deixe onde estamos ou arrume um galpão, na mesma região, para podermos trabalhar em paz, com todos os direitos que temos como trabalhadores”
Atualmente, a Coopamare opera com 24 cooperados e aproximadamente 60 catadores autônomos, responsáveis pela triagem e reaproveitamento de cerca de 100 toneladas mensais de materiais recicláveis.
Como parte das ações contra o despejo, a cooperativa elaborou um manifesto divulgado em um abaixo-assinado, defendendo sua manutenção na região de Pinheiros. No texto, a entidade sustenta que garantir a continuidade da Coopamare significa apoiar o trabalho digno, a preservação ambiental e o compromisso com a justiça social.
O manifesto ressalta que a Coopamare representa um símbolo de resistência, dignidade e sustentabilidade, resultado da dedicação de trabalhadores e trabalhadoras. O documento destaca que muitos dos envolvidos já viveram em situação de rua e encontraram na reciclagem uma alternativa honesta de geração de renda e participação social.
Segundo o texto, além de promover emprego e renda, a cooperativa realiza um serviço fundamental para a comunidade local, garantindo a correta separação e destinação dos resíduos recicláveis. A entidade argumenta que sua atuação contribui para a diminuição da poluição, reduz o volume de resíduos encaminhados para aterros sanitários, preserva recursos naturais e gera economia ao poder público por meio da redução dos custos com coleta de lixo.
O manifesto também enfatiza que a experiência da Coopamare serve como exemplo de organização social para milhares de catadores que, ao longo dos anos, se inspiraram em seu trabalho para lutar contra o desemprego e a informalidade, promovendo a inclusão formal de catadores muitas vezes marginalizados.
A Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (Ancat) declarou apoio oficial à Coopamare, ressaltando que a cooperativa foi a primeira do gênero no Brasil e representa um marco histórico na organização da categoria e na consolidação da reciclagem com inclusão social. Também manifestaram solidariedade à Coopamare a Unicatadores e o Movimento Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (MNCR), reforçando que a permanência do grupo no local deve ser reconhecida como um direito decorrente da relevância de sua atuação para a cidade.