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Peru: ultraconservador e esquerda disputam voto a voto para 2º turno

Com país em turbulência, Keiko Fujimori garante vaga, enquanto Roberto Sánchez e Rafael Aliaga travam batalha por menos de 3 mil votos.

17/04/2026 às 23:16
Por: Redação

A corrida presidencial no Peru permanece em suspense cinco dias após o pleito, com a nação enfrentando uma fase de intensa instabilidade política que resultou em nove presidentes em uma década. A disputa pelo segundo turno, agendado para 7 de junho, é acirrada, com a segunda e terceira posições separadas por uma margem de menos de 3 mil votos.

 

A candidata de direita, Keiko Fujimori, assegurou matematicamente sua vaga no segundo turno, obtendo 17% dos votos válidos.

 

O esquerdista Roberto Sánchez Palomino, aliado do ex-presidente Pedro Castillo, acumula 12% dos votos, enquanto o ultraconservador Rafael Aliaga, simpatizante do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o segue de perto com 11,9%. Até o início da tarde desta sexta-feira, 93,3% das urnas já haviam sido apuradas no país.

 

Gustavo Menon, professor de pós-graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (USP), analisa que o cenário eleitoral peruano reflete a disputa comercial entre China e Estados Unidos na região. Segundo Menon, a plataforma de Keiko Fujimori busca um realinhamento com os Estados Unidos, com intenções de endurecer a política migratória e conter a influência chinesa, notadamente presente no Porto de Chancay.

 

Trajetória de Keiko Fujimori

 

Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, lidera a apuração com 2,6 milhões de votos de um total de 27 milhões de eleitores. Esta é sua quarta tentativa de alcançar a presidência, tendo sido derrotada em segundo turno nas três eleições anteriores (2011, 2016 e 2021).

 

Suas repetidas derrotas indicam uma dificuldade em superar um limite de votos, atribuída à resistência popular em relação ao legado político de seu pai, que foi condenado por violações de direitos humanos. O antropólogo Salvador Schavelzon, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em política latino-americana, pontua que Keiko evoca a memória da guerra contra o Sendero Luminoso, um discurso antiterrorista que, nas províncias, é associado às elites e ao neoliberalismo.

 

O Candidato de Esquerda: Roberto Sánchez

 

Roberto Sánchez registrou até o momento 1,890 milhão de votos. Ele é um defensor do ex-presidente Pedro Castillo, que foi deposto e preso sob acusação de tentativa de golpe de Estado ao tentar dissolver o parlamento. Seus apoiadores argumentam que Castillo foi uma vítima do poderoso parlamento peruano, por representar os anseios da população rural.

 

O professor Salvador Schavelzon descreve Sánchez como um político de perfil nacionalista-popular.

 

“É um nacionalismo popular que reivindica a cor da pele, o chapéu, que são símbolos importantes de um setor político que vem chegando aos poucos, mas com muita resistência por parte das elites. Ele busca dar uma resposta às maiorias que trabalham na terra, do interior, e tem prometido algumas reformas”, comentou.

 

As propostas de governo de Sánchez incluem a nacionalização de recursos naturais, a convocação de uma nova assembleia constituinte para reformar os poderes institucionais do Peru e a ampliação dos direitos trabalhistas. Ele atuou como ministro do Comércio Exterior e Turismo no governo de Pedro Castillo em 2021. Psicólogo de formação, Sánchez é deputado pelo partido Juntos Pelo Peru e foi um dos principais entusiastas da construção do Porto de Chancay, que recebeu expressivos investimentos chineses para facilitar o escoamento da produção para a Ásia.

 

Contudo, Schavelzon adverte que, apesar de sua conexão com o eleitorado rural, Sánchez é um político que emergiu do cenário partidário do congresso peruano.

 

"Sanchéz vem dos jogos partidários, da velha política do Congresso, que acena para o povo, mas muitas vezes acaba sendo mais próximo das elites, talvez novas elites que se reposicionam. A gente viu isso em vários lugares da América Latina”, pondera.

 

Rafael Aliaga e a Ultraconsevadoria

 

Rafael López Aliaga, que se autodenomina ultraconservador, é visto pelo professor Menon como representante da extrema-direita. O professor Schavelzon, que também leciona na Universidade Católica de Brasília (UCB), complementa que:

 

“Se o Peru tiver uma eleição em 2º turno entre Keiko Fujimori e Rafael Aliaga, quem sai fortalecido é o campo da extrema-direita. Haverá um realinhamento em direção à Casa Branca, a despeito dessa interdependência entre Peru e China do ponto de vista das relações comerciais”, acrescenta Schavelzon.

 

Ex-prefeito da capital Lima, Aliaga é frequentemente comparado a Donald Trump e ao presidente argentino Javier Milei, devido à sua combinação de discurso ultraconservador com uma defesa intransigente do livre mercado.

 

Denúncias de Fraude Eleitoral

 

O ultraconservador do partido Revolução Popular contabiliza 1,877 milhão de votos. Ele ocupava a segunda posição no início da apuração, mas foi superado pelo esquerdista Sánchez quando os votos das áreas rurais começaram a ser computados. Diante dessa mudança de cenário, Aliaga passou a denunciar uma suposta fraude eleitoral, embora sem apresentar provas.

 

A acusação foi rechaçada pelo partido de seu adversário. Em nota, o Juntos Pelo Peru, partido de Sánchez, declarou: “Fazemos um chamado firme ao nosso povo para manter a calma, a vigilância democrática e a confianças nos canais institucionais, esperando com responsabilidade os resultados oficiais”.

 

Um comunicado preliminar da Missão da União Europeia, responsável por fiscalizar as eleições peruanas, não identificou indícios de fraude, apesar de atrasos em 13 locais de votação em Lima, que afetaram 55 mil pessoas.

 

Desafios de Governabilidade e Crise Política

 

Com a marca de nove presidentes em dez anos, o Peru tem sido palco de sucessivas renúncias e destituições. O professor Gustavo Menon projeta que, independentemente do vencedor, a governabilidade não estará assegurada.

 

“Independentemente quem seja o novo presidente eleito, a vida com o parlamento peruano não será fácil frente a essa pulverização dos partidos e do sistema eleitoral. Para formar uma base de governo, o presidente eleito terá que fazer uma série de concessões”, pontua.

 

Menon enfatiza que, apesar de o Peru ser um regime presidencialista, “é o parlamento, em grande medida, quem toca as agendas de governo”.

 

A eleição de 2021 viu Pedro Castillo, um professor rural de centro-esquerda, vencer Keiko Fujimori no segundo turno, um resultado que surpreendeu por Castillo não figurar entre os favoritos nas pesquisas da época. Contudo, Castillo foi afastado e preso após tentar dissolver o Parlamento, sendo condenado em novembro de 2025 a mais de 11 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Para alguns de seus apoiadores, Castillo foi vítima de um golpe orquestrado pelo parlamento peruano.

 

A vice, Dina Boluarte, assumiu o cargo, mas sua gestão foi marcada pela repressão violenta a manifestações contra a destituição de Castillo, resultando em 49 mortes, conforme dados da Anistia Internacional. Com baixíssima aprovação popular, Boluarte foi destituída pelo Congresso em 10 de outubro de 2025.

 

José Jerí, então presidente do Parlamento, assumiu em seguida, mas sua administração foi breve. Em 17 de fevereiro do mesmo ano, o Congresso destituiu Jerí, e José María Balcázar Zelada foi empossado interinamente por eleição indireta do poderoso Parlamento peruano, frequentemente apontado como o verdadeiro detentor do poder no país andino. O Peru, quarto país mais populoso da América do Sul, com cerca de 34 milhões de habitantes, compartilha uma fronteira de 2,9 mil quilômetros com o Brasil, a segunda maior depois da Bolívia.

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