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Estudo da WWF Aponta Perda de R$ 47 Bilhões com Petróleo na Foz do Amazonas

Análise compara impactos financeiros e socioambientais da exploração fóssil com investimentos em energias renováveis e biocombustíveis ao longo de 40 anos.

23/04/2026 às 23:26
Por: Redação

Um levantamento inédito da WWF Brasil, divulgado nesta quinta-feira (23), indica que o Brasil pode abrir mão de 47 bilhões de reais em receitas e benefícios ao dar prioridade à exploração de petróleo na Foz do Amazonas, em vez de investir em fontes de energia renovável e biocombustíveis.

 

O montante totaliza 22,2 bilhões de reais em prejuízos projetados para o investimento em combustíveis fósseis na região da Margem Equatorial, somados a 24,8 bilhões de reais em lucros que o país deixaria de obter por não direcionar recursos para a eletrificação de sua matriz energética.

 

Metodologia de Análise

 

Para avaliar os potenciais ganhos e perdas do Brasil ao considerar uma nova fronteira petrolífera em um cenário de transição energética acelerada e riscos crescentes, o estudo conduzido pela WWF-Brasil empregou a metodologia de Análise Socioeconômica de Custo-Benefício (ACB). Esta é a mesma ferramenta de medição recomendada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) para a avaliação de grandes projetos de investimento público.

 

Daniel Thá, consultor da WWF-Brasil, explicou que a ACB se caracteriza por ser um método altamente sistemático e comparativo, fundamentado em critérios objetivos e transparentes, baseados em evidências, e que permite comparações em uma perspectiva de longo prazo.

 

“É uma análise que não está focada no lucro do investidor privado ou no imposto que o governo recolhe. Está balizada no retorno para todos os atores da sociedade, incluindo governo, empresa e famílias”, explica.


 

Projeções para a Bacia da Foz do Amazonas

 

A pesquisa considerou um cenário de desempenho produtivo na bacia da Foz do Amazonas ao longo de 40 anos. Os primeiros dez anos seriam dedicados à exploração para identificar e comprovar a existência de petróleo, além de desenvolver a infraestrutura para a nova frente de extração do recurso.

 

Nos 30 anos subsequentes, com o início efetivo da operação, foram estimados investimentos alinhados com o mercado e o preço do petróleo a longo prazo, a partir de 2036, período em que os barris estariam disponíveis para comercialização. A reserva hipotética para este estudo seria de 900 milhões de barris de petróleo, com capacidade de exploração de 120 mil barris por dia, provenientes de 20 poços exploratórios.

 

Do ponto de vista financeiro puro, após descontar os custos operacionais, as empresas gerariam lucro se o valor de venda do barril fosse de 39 dólares. Atualmente, o preço do barril de petróleo está em torno de 100 dólares.

 

Daniel Thá ressaltou que a lucratividade seria influenciada pelas ações climáticas adotadas pelo país, indicando que as empresas petrolíferas dependem significativamente de um cenário global com pouca ou nenhuma ação climática para garantir seus lucros.

 

Custos Sociais e Ambientais

 

O estudo também incorporou o custo social do modelo de exploração na Foz do Amazonas. O principal efeito colateral considerado foi a emissão de gases de efeito estufa, calculada conforme os critérios estabelecidos pela Agência Internacional de Energia.

 

O consultor da WWF-Brasil detalhou que, a partir do modelo representativo desenvolvido, foi possível estimar emissões de 446 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, sendo a maior parte gerada na fase de consumo dos combustíveis.

 

Considerando apenas o custo social do carbono, o volume dessas emissões pode gerar prejuízos à população que variam entre 21 bilhões e 42 bilhões de reais.

 

Ao integrar esses prejuízos, denominados externalidades, os pesquisadores concluíram que o saldo líquido da nova frente petrolífera na Foz do Amazonas resultaria em uma perda de 22,2 bilhões de reais ao longo de 40 anos.

 

“A adição dessas externalidades faz com que a somatória dos custos de exploração e produção mais as externalidades não sejam superadas pelo volume de benefícios que é gerado”, explicou Daniel Thá.

 

Comparativo de Cenários Energéticos

 

A partir do modelo estabelecido para o petróleo, a rota fóssil foi comparada a outros dois sistemas energéticos, utilizando os mesmos parâmetros de investimento, quantidade de energia entregue, volume de combustível e risco de mercado para o período de 40 anos.

 

O estudo parte do princípio de que a demanda social é por energia em geral, e não especificamente por petróleo. Para permitir a comparação entre as diferentes fontes, a produção média anual de petróleo foi convertida para uma unidade de medida equivalente, totalizando 48,63 TWh/ano. Esta métrica serve como base para verificar se alternativas como a eletrificação podem fornecer o mesmo serviço energético com custos e impactos ambientais reduzidos.

 

No cenário de eletrificação, foram considerados os seguintes percentuais, conforme o último Plano Decenal de Expansão de Energia: 50% de energia eólica em solo, 42% de energia solar fotovoltaica, 4% de biomassa (proveniente do bagaço de cana-de-açúcar) e 4% de biogás.

 

“Desvendamos que essa rota de eletrificação, que é imediata e não precisa esperar os dez anos de exploração da rota do petróleo, traria um retorno positivo para sociedade, ou seja mais benefícios que custos e externalidades, de quase R$ 25 bilhões”, afirmou Daniel Thá.


 

Para o terceiro cenário, focado em biocombustíveis, foram estabelecidas comparações específicas: a gasolina foi contrastada com o etanol, o diesel com o biodiesel, o combustível de aviação com o SAF (combustível sustentável de aviação) e o gás de petróleo com o biometano.

 

Embora os biocombustíveis apresentassem custos de produção mais elevados em comparação com o petróleo, o prejuízo resultante das externalidades (efeitos colaterais) foi significativamente menor, segundo os cientistas. Essa diferença resultou em um custo total para o cenário de biocombustíveis 29,3 bilhões de reais inferior ao da rota de combustíveis fósseis.

 

Perspectiva da Petrobras

 

A Margem Equatorial, e mais especificamente a bacia da Foz do Amazonas, é vista como a nova fronteira para a exploração de petróleo e gás no Brasil, com um potencial estimado de 30 bilhões de barris de petróleo.

 

Esta região, localizada entre os estados do Amapá e Pará, é ambientalmente sensível, caracterizada por sua vasta biodiversidade e proximidade com importantes rios e a Floresta Amazônica. Contudo, para a Petrobras, a área é considerada estratégica e fundamental para substituir a produção do pré-sal após o ano de 2030.

 

A estatal avalia que a produção de óleo na Margem Equatorial é uma decisão crucial para que o país não se torne dependente da importação de petróleo em um horizonte de dez anos.

 

O governo brasileiro, por sua vez, defende que os recursos provenientes dos combustíveis fósseis sejam utilizados para financiar a transição energética do país.

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