O Rio de Janeiro amanheceu tomado pela devoção a São Jorge nesta quarta-feira (23), dia em que milhares de fiéis se reuniram na Avenida Presidente Vargas, no coração da capital fluminense, próximo ao Campo de Santana. O local é palco de uma das mais significativas manifestações religiosas da cidade, que teve início ainda na madrugada.
A data, reconhecida como feriado estadual desde o ano de 2008, ganhou ainda mais relevância em 2019, quando São Jorge foi oficialmente proclamado padroeiro do estado do Rio de Janeiro.
Na simbologia popular, o santo é tradicionalmente ilustrado como um cavaleiro triunfante sobre um dragão, representando a proteção, a coragem e a capacidade de superar obstáculos e desafios.
Centenas de pessoas se concentraram diante do palco montado em frente à Biblioteca Parque Estadual. Ali, acompanharam a alvorada, momento tradicional que ocorre pontualmente às 5h, seguida por uma missa solene conduzida pelo padre Wagner Toledo.
Cada um aqui tem a sua batalha. Cada coração aqui conhece um peso. Cada vida aqui já enfrentou ou está enfrentando o dragão.
A cantora Azula Cristina Pereira enfatizou a profunda conexão religiosa e cultural da celebração, que se estende também às religiões de matriz africana.
Venho todo ano [para a celebração de São Jorge]. Nem sempre consigo acordar para a madrugada, então estou feliz de estar aqui hoje. Para mim, que faço parte das religiosidades africanas, a gente cultua São Jorge junto com Ogum. Tudo está vinculado ao trabalho, à luta.
Azula destacou ainda que o sincretismo religioso representa uma poderosa forma de resistência histórica. Essa fusão de crenças é uma característica marcante da devoção a São Jorge no Brasil, onde, nas religiões afro-brasileiras como a umbanda e o candomblé, o santo é frequentemente associado a Ogum, um orixá guerreiro reverenciado por sua ligação com o ferro e as batalhas. Em determinadas regiões, também se estabelece uma conexão com Oxóssi.
A origem dessa prática remonta ao período da escravidão, quando os africanos, para preservar suas tradições e fé, passaram a vincular seus orixás a santos católicos.
A pedagoga e produtora cultural Gaby Makena compartilhou detalhes de sua preparação para o evento.
Começa no dia anterior, com oração, organização, roupa vermelha. Chegar cedo, acompanhar a missa e sair com esperança. Eu venho todo ano, no mesmo lugar, para alcançar minhas vitórias.
A ex-ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, esteve presente na cerimônia da alvorada e expressou grande emoção ao recordar sua irmã, Marielle Franco.
Para mim, tem um significado totalmente pessoal e emocional. Eu vim com a Marielle em 2016, no ano em que ela foi eleita [vereadora] e, desde então, venho pagar a promessa que fizemos naquele dia. É como se eu estivesse hoje abraçando ela de novo. São Jorge é um momento de emoção, de família, de devoção e de resistência.
Anielle Franco reforçou a relevância de combater a intolerância religiosa, afirmando:
A gente tem lutado muito para que a intolerância e o racismo religioso acabem. São Jorge reúne diferentes religiões com fé e devoção e mostra o que o país precisa construir.
Além das celebrações no centro da cidade, a devoção a São Jorge também mobilizou milhares de pessoas no bairro de Quintino, localizado na zona norte. A alvorada tradicional de Quintino é outro ponto de grande concentração de devotos.
A programação do dia inclui missas realizadas de hora em hora, garantindo um fluxo constante de fiéis que frequentam as regiões para orar, cumprir promessas e participar ativamente das celebrações.