Após uma década sem a realização do principal evento de moda da cidade, o Rio de Janeiro recebe em 2026 o retorno da Rio Fashion Week (RFW), trazendo como destaque a exposição "A Alta Costura do Carnaval". Essa mostra ocupa uma área de 750 metros quadrados no espaço Hub DW, inserido na programação da Semana de Moda do Rio, localizada no Píer Mauá, na região portuária da capital fluminense.
Entre os destaques da exposição, estão figurinos e adereços de cabeça que já foram utilizados por celebridades como Sabrina Sato, Xuxa, Anitta, Giovanna Lancellotti, Adriane Galisteu e Erika Januza. Ao todo, 50 looks físicos estão disponíveis ao público, além de 17 criações exibidas em fotografias de 5 x 6 metros, todas assinadas pela fotógrafa Priscila Prade. As peças são criações do renomado estilista Henrique Filho. A concepção do projeto foi de Milton Cunha, e a curadoria é do arquiteto e artista multidisciplinar Gringo Cardia.
“Para mim é uma honra, depois de tantos anos construindo o meu nome e mostrando o meu trabalho. Eu não teria condição financeira de fazer isso nunca. Está sendo um presente depois de uma certa idade. Foi um presentão que Deus me deu”, disse o estilista em entrevista.
O evento propõe um novo olhar sobre as fantasias e trajes criados para rainhas de bateria do carnaval, reivindicando seu reconhecimento como alta-costura. Henrique Filho atua há meio século na confecção de figurinos para o carnaval e avalia que a mostra representa um ato de justiça ao trabalho de toda uma categoria.
“Com certeza. É um orgulho muito grande para nós, que trabalhamos há muitos anos com isso. Para mim, é um reconhecimento muito grande. Não tenho nem palavras”.
Segundo avaliação de Henrique Filho, enquanto grandes costureiros da alta-costura tradicional, como Valentino, Saint Laurent, Dior, Chanel e Givenchy, produziam peças com tecidos, bordados e pedrarias, atualmente há estilistas que incorporam estruturas similares às adotadas por profissionais do carnaval brasileiro.
“As coleções feitas pelos estilistas Valentino, Saint Laurent, Dior, Chanel e Givenchy eram alta-costura feita com tecido, bordado e pedraria. Hoje em dia, não. Você pega um Galliano, por exemplo, e ele usa a estrutura que o povo do carnaval sempre usou”, afirmou.
O estilista destaca que sua preferência é pelo universo do carnaval. Ele explica que gosta de criar fantasias inovadoras e que fogem do convencional, buscando sempre exclusividade nas peças em meio à grande oferta de vestidos tradicionais em renda e babados.
Conforme observa o curador Gringo Cardia, Henrique Filho é reconhecido por suas obras, mas muitas vezes não tem seu nome devidamente divulgado. A expectativa dos organizadores é que a exposição traga uma nova perspectiva para a moda do carnaval, mostrando um lado da cultura nacional que ainda carece de reconhecimento.
“As pessoas veem o carnaval como evento, mas, na verdade, a maior Escola de Belas Artes do Brasil é o carnaval do Rio de Janeiro. O Henrique é um estilista de alta-costura dentro do carnaval, que estudou arquitetura na Escola de Belas Artes do Rio”, afirmou Gringo Cardia.
O curador ainda destaca que, muitas vezes, discute-se a alta-costura francesa sem perceber que o Brasil também produz moda do mesmo nível:
“As pessoas falam tanto em alta-costura e não têm a visão de que temos a alta-costura no nosso quintal. O quintal da gente é a maison française. É a maneira das pessoas olharem diferente. Essa exposição abre, para o pessoal da moda, a busca da valorização que precisamos dar para os artesãos e estilistas que temos de montão no Rio de Janeiro”, concluiu. O nome da exposição, segundo ele, foi escolhido para provocar reflexão sobre o tema.
“A gente sabe que haute couture é só em Paris, na França, mas ao iniciar um trabalho minucioso, uma roupa que demora meses para fazer, é o mesmo que eles fazem. Eu botei alta-costura para justamente provocar as pessoas a olharem e pensarem sobre isso.”
Para Gringo Cardia, há similaridades entre os grandes desfiles internacionais de alta-costura e os espetáculos das escolas de samba. Ele cita como exemplo o estilista John Galliano e propõe a criação de um museu do carnaval no Rio de Janeiro para dar visibilidade aos criadores desse segmento de moda.
“Muito importante o Milton ter aberto os nossos olhos para isso. O Milton é um historiador e tem uma visão total de quão potente é a nossa arte e criatividade. Ele é um doutor em letras e história da arte”.
O estilista Henrique Filho compartilha que já expôs suas obras em duas ocasiões no Baile do Copacabana Palace e promoveu dois desfiles no Programa Hebe Camargo, mas afirma que a participação na Rio Fashion Week representa um momento único, pois integra um dos maiores eventos de moda do Brasil.
Natural de Bela Vista do Paraíso, no Paraná, Henrique iniciou sua carreira confeccionando decorações de bailes e fantasias para amigos e blocos carnavalescos. Depois, mudou-se para Campinas, em São Paulo, onde passou a produzir fantasias destinadas a amigos que iam brincar o carnaval carioca.
“Um grande amigo meu, que se vestia de mulher no carnaval, disse que eu tinha que conhecer o carnaval do Rio. Eu vim em 1984. Nunca mais saí, estou aqui até hoje.”
No início dos anos 1980, Henrique trabalhou com alta-costura na loja Le Gotham, em Ipanema, onde aprendeu os fundamentos dessa técnica. Naquela época, ainda não atuava diretamente com o carnaval, mas criava figurinos para blocos de rua e para o grupo de 15 amigos com quem desfilava na Banda da Carmem Miranda.
Seu primeiro trabalho para uma personalidade conhecida foi um corset confeccionado para Luma de Oliveira, rainha de bateria da Caprichosos de Pilares, que utilizou a peça em desfile na avenida. A partir desse momento, sua clientela passou a incluir outras celebridades, como Valéria Valenssa (Globeleza), Luana Piovani e Adriane Galisteu, além de trabalhos para a comissão de frente da Beija-Flor durante dez anos.
Ao mesmo tempo em que criava para Luma de Oliveira, Henrique também desenvolvia figurinos para Xuxa. O primeiro traje completo de escola de samba elaborado por ele foi para um amigo que desfilava pela Portela. Atualmente, Henrique Filho mantém produção durante todo o ano, com looks disponíveis para bailes de carnaval, ensaios técnicos e demais eventos.
O estilista destaca a longa parceria com Sabrina Sato, que já dura quase 15 anos, abrangendo criações para o carnaval do Rio e de São Paulo, além de eventos e festas fora do período carnavalesco, como o aniversário da apresentadora em fevereiro de 2026.
De acordo com Henrique Filho, algumas criações exigem até seis meses para serem concluídas, a depender da complexidade e dos materiais utilizados. Ele menciona, por exemplo, o vestido utilizado por Camila Pitanga no Baile do Copacabana, inteiramente confeccionado com cristais e pedras, cujo processo de produção também demandou cerca de meio ano.
Para a secretária Daniela Maia, o retorno da Rio Fashion Week após uma década e a apresentação de uma mostra de alta-costura assinada por um estilista de grande talento, porém ainda pouco conhecido do grande público, representa uma oportunidade de exibir ao mundo a autenticidade e o luxo presentes na moda carioca e brasileira.
O público visitante da Semana de Moda do Rio pode acompanhar ao vivo o trabalho realizado por aproximadamente 15 bordadeiras do ateliê de Henrique Filho, evidenciando o grau de técnica, precisão e tempo necessários para confeccionar cada peça apresentada na exposição.
A cerimônia de abertura da Rio Fashion Week ocorreu na terça-feira, dia 14, com um desfile da grife Osklen no Palácio da Cidade, sede social da Prefeitura municipal, em Botafogo, na zona sul da cidade. A programação oficial, reinserida no calendário da moda brasileira, teve início na quarta-feira, dia 15, e se estende até o sábado, dia 18 de abril.