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Projeto renova ações para proteger costões rochosos em Arraial do Cabo

Monitoramento científico orienta manejo sustentável e ações ambientais em reservas marinhas no litoral do Rio

21/04/2026 às 15:04
Por: Redação

Em Arraial do Cabo, na Região dos Lagos no Rio de Janeiro, mergulhadores e pesquisadores mantêm rotinas de monitoramento subaquático para identificar e contar espécies de peixes. O local, considerado um dos pontos de mergulho mais preservados do litoral brasileiro, é palco de um verdadeiro censo marinho, realizado também nos litorais de Cabo Frio e Búzios a cada seis meses, e anualmente na região de Angra dos Reis, na Costa Verde.

 

Durante os mergulhos a uma profundidade de sete a oito metros, são usados instrumentos para delimitar faixas de vinte metros. Os pesquisadores anotam quantidades e espécies, utilizando catálogos para identificação dos peixes, além de cartelas específicas para observar a coloração dos corais, elemento essencial para avaliar a saúde desses organismos. Não raro, tartarugas marinhas acompanham a atividade dos cientistas, que demonstram vasto conhecimento taxonômico sobre as espécies locais.

 

O monitoramento integra o Projeto Costão Rochoso, desenvolvido pela Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento em parceria com a Petrobras desde 2023, com renovação do acordo em 2026 para mais quatro anos e investimento de seis milhões de reais no novo ciclo.

 

Ecossistema de transição e diversidade única

 

O termo costão rochoso refere-se ao ecossistema presente entre o oceano e a terra firme, formado por pedras, paredões e fragmentos submersos. Em algumas praias, as pedras são visíveis e cobertas de vegetação na parte exposta, como a Pedra do Arpoador e o Pão de Açúcar, ambos no Rio de Janeiro.

 

Essas formações abrigam e alimentam uma diversidade significativa de vida marinha, aves e organismos das entremarés, como cracas, mexilhões, algas e caranguejos, que ocupam áreas ora submersas, ora expostas conforme a maré. O costão rochoso predomina entre o norte do Rio Grande do Sul e o Espírito Santo, com fragmentos isolados no Nordeste.

 

O projeto, criado em 2017 por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense, iniciou suas atividades na Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo, ambiente protegido e de rica biodiversidade. A bióloga marinha Juliana Fonseca, cofundadora do projeto, destaca que o local é considerado um hotspot ambiental devido a fatores geográficos, pois Arraial do Cabo funciona como um divisor de correntes entre águas frias do sul do Atlântico e águas quentes vindas do Nordeste.

 

“A gente tem pelo menos 200 espécies de peixes. Todas as cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil passam aqui um tempo. Além disso, a gente tem diversas espécies de aves, de algas, uma infinidade”, descreve ela.


 

No litoral fluminense, já foram encontrados exemplares de espécies habitualmente registradas até no Caribe. Marcos de Lucena, biólogo e mergulhador, compara a abundância local e afirma:

 

“Tem uma riqueza muito maior que Fernando Noronha”.


 

Berçário natural e presença de espécies ameaçadas

 

Na região dos costões rochosos, a proximidade das rochas serve de refúgio para peixes pequenos, tornando o local um berçário natural. O monitoramento realizado pelo projeto na Pedra Vermelha, área em que apenas pesquisadores licenciados podem mergulhar, identificou não só peixes, mas também corais, lulas e polvos.

 

A autorização para o chamado mergulho científico é responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

 

O coordenador-geral do projeto, o biólogo marinho Moysés Cavichioli Barbosa, observa que diversos animais ameaçados são identificados nessas águas, como garoupas, meros, badejos, budiões, raias e tartarugas. Entre as espécies monitoradas, há pelo menos quinze com algum grau de ameaça, incluindo aquelas endêmicas do Brasil.

 

Informação científica para decisões ambientais

 

O projeto mantém diálogo constante com órgãos gestores, como o ICMBio, para subsidiar decisões sobre práticas turísticas e pesqueiras. Barbosa exemplifica o manejo adequado de espécies como o budião, defendendo a necessidade de moratória de pesca por dois anos em certos casos, devido às características fisiológicas desses peixes:

 

“Tem algumas espécies que o ideal mesmo é ter uma moratória, por exemplo, não pode pescar por dois anos”.


 

Ele explica que todos os budiões nascem fêmea, e com o tempo um indivíduo se transforma em macho — geralmente o maior do grupo. Quando este é pescado, a reprodução anual da espécie torna-se comprometida:

 

“Depois de um tempo, um deles faz a reversão sexual e vira macho. Normalmente o maior. E aí vem o pescador e puf! Mata o maior que tem. Então, naquele ano, aquela reprodução já ficou comprometida”.


 

Entre as orientações repassadas ao poder público estão limites de proximidade para turistas mergulhadores junto a tartarugas marinhas, distâncias seguras para embarcações turísticas e controle do ruído dos motores nas áreas de preservação. Uma das pesquisas do projeto busca saber até que distância um mergulhador pode se aproximar de tartarugas sem provocar fuga dos animais.

 

Impactos das mudanças climáticas e pesquisa em entremarés

 

O monitoramento inclui também a zona de entremarés, formada por rochas expostas durante a maré baixa. Nessas áreas, pesquisadores avaliam como organismos como algas e mexilhões respondem às variações extremas de temperatura, especialmente durante ondas de calor.

 

A bióloga marinha Isis Viana relata que eventos de calor extremo têm ocorrido com mais frequência, prejudicando a sobrevivência de várias espécies:

 

“Tem dias que a temperatura sobe muito, tem dias que baixa muito. Isso afeta essas formas de vida e podem não resistir ao calor”.


 

Ela destaca ainda que sensores instalados em rochas e bóias oceanográficas monitoram a temperatura do ambiente de forma permanente:

 

“A gente chama esses momentos de extremos de calor. São anormais e acontecem com mais frequência por causa das mudanças climáticas, não tem organismos que sobrevivam”.


 

O trabalho do grupo busca ainda mensurar, de forma precisa, qual percentual do litoral brasileiro é composto por costões rochosos.

 

Gestão sustentável da reserva e participação comunitária

 

A Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo adota o uso sustentável dos recursos naturais, respeitando os meios de vida de populações tradicionais. A pesca artesanal é permitida tanto para subsistência quanto para fins comerciais por moradores locais, enquanto a pesca industrial é proibida.

 

Weslley Almeida, agente de gestão socioambiental do ICMBio, reforça que a administração da reserva depende de respaldo científico, fornecido pela parceria com o Projeto Costão Rochoso. O objetivo, segundo Almeida, é garantir a preservação dos recursos para as próximas gerações de pescadores artesanais.

 

O pescador José Antônio Freitas Batista, que atua há 49 anos na reserva, afirma que a pesca sustenta a economia de Arraial do Cabo, beneficiando não apenas pescadores, mas também diversas atividades associadas, como fábricas de gelo, carpintaria naval, manutenção de motores, construção de instrumentos de pesca e comércio. Ele afirma que a reserva garante o equilíbrio entre pesca e turismo:

 

“Se a gente não tivesse essa preservação, acho que nem o turismo a gente teria, porque o turismo veio como complemento de renda para a gente não atacar diretamente a pesca com todo o vapor e acabar com os peixes”.


 

Batista destaca que toda a cadeia produtiva da cidade depende da atividade pesqueira.

 

Educação ambiental e integração social

 

O projeto também se dedica à formação e conscientização da comunidade local sobre a importância do manejo responsável dos costões rochosos. Pesquisadores promovem encontros em escolas e capacitação de pescadores e familiares.

 

Yago Ferreira, cientista do mar participante do projeto, defende a aproximação da sociedade com o ambiente marinho como estratégia para promover uma mentalidade mais harmoniosa com o oceano:

 

“A gente não consegue conhecer o que não entende e não entende o que está longe”.


 

Moysés Barbosa, coordenador do projeto, considera que a mobilização social potencializa a conservação ambiental de forma mais efetiva do que a divulgação restrita a artigos acadêmicos ou burocracia institucional:

 

“Isso é muito mais eficaz do que qualquer conhecimento acadêmico que sai apenas em artigo ou que vai apenas lá para Brasília, para um gestor. Trabalhar com a sociedade é muito mais eficiente”.


 

Em nota à imprensa, a prefeitura de Arraial do Cabo informou que elabora estudos técnicos para definir limites de visitantes em praias e pontos turísticos, buscando evitar sobrecarga ambiental e elevar a qualidade da experiência do turista. O município também atua em parceria com o ICMBio para fiscalização e implementação de políticas públicas na reserva marinha.

 

Ampliação da parceria com a Petrobras

 

O Projeto Costão Rochoso iniciou a parceria com a Petrobras em 2023, integrando o programa socioambiental da companhia. Em 2026, a cooperação foi renovada por mais quatro anos, com cada ciclo submetido à avaliação quanto à continuidade das ações.

 

Segundo Ana Marcela Bergamasco, gerente de projetos de responsabilidade social da Petrobras, as parcerias firmadas pela empresa buscam conciliar interesses ambientais e sociais, considerando a necessidade de integração entre turismo de base comunitária, atividades pesqueiras e conservação ambiental.

 

“Tem que trabalhar com a questão social, turismo de base comunitária, com a comunidade e a pesca, mas de uma maneira sustentável, tirando uma visão de que a conservação estaria competindo com alguma atividade econômica”.


 

A gerente avalia ainda:

 

“Na verdade, para a população, elas podem andar juntas e uma contribuir com a outra”.


 

Os responsáveis pelo texto e imagens visitaram as áreas do projeto a convite da Petrobras.

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