A busca por soberania e integração regional foi apontada como fundamental pelos líderes africanos durante o 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África, realizado nos dias 20 e 21 de abril de 2026, em Dacar, capital do Senegal. O evento destacou que, para garantir paz, estabilidade e segurança no continente, é imprescindível fortalecer a autonomia dos países africanos, investir em políticas voltadas para a população jovem e intensificar o controle das fronteiras.
Nesta edição de 2026, participaram representantes de 38 países, entre eles 18 nações africanas. Também acompanharam as discussões países de outras regiões, como o Brasil, representado pela embaixadora brasileira no Senegal, Daniella Xavier. Além de chefes de Estado, o encontro reuniu membros de organismos internacionais e especialistas na área.
Durante a sessão de abertura, o presidente do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, destacou que o continente africano sofre as consequências de crises globais, como disputas comerciais entre grandes potências, protecionismo econômico e questões ligadas ao clima.
“O nosso continente, longe de estar protegido, sofre os efeitos de todas essas crises e ainda precisa enfrentar múltiplas ameaças, como conflitos armados e o terrorismo”, afirmou.
O tema central do fórum foi "África enfrenta os desafios da estabilidade, integração e soberania: Quais soluções sustentáveis?" De acordo com Bassirou Diomaye Faye, o objetivo é promover uma reflexão conjunta sobre como romper o ciclo de instabilidade e transformar o continente em uma região pacífica, integrada e próspera.
“Esse tema nos convida a uma reflexão profunda sobre o que devemos fazer juntos, com solidariedade, para tirar o continente do ciclo de instabilidade e transformá-lo em um espaço pacífico, integrado, soberano e próspero”, declarou o presidente senegalês.
Diante de convidados de países europeus, como Alemanha, Espanha, Portugal e França, que possuem histórico de colonização na África, Bassirou Diomaye Faye defendeu que as decisões sobre segurança africana devem ser tomadas dentro do próprio continente, sem interferência externa.
“Não podemos mais aceitar que nossa agenda de segurança seja definida fora da África, nem que nosso espaço estratégico seja ocupado sem nosso consentimento”, sustentou.
O presidente senegalês destacou ainda a necessidade de soberania no uso dos recursos naturais encontrados na região, como urânio, petróleo e gás, que recentemente passaram a ser extraídos no país. Para ele, é fundamental que a exploração, transformação e comercialização desses bens ocorram localmente e sejam utilizadas para promover a transformação estrutural do continente, e não apenas para abastecer indústrias estrangeiras.
“Esses recursos não devem mais alimentar apenas indústrias estrangeiras. Extrair em nosso território, transformar em nosso território e vender a preços justos. Esse é o motor da nossa transformação estrutural”, completou.
Bassirou Diomaye Faye também direcionou atenção especial ao avanço do terrorismo na região conhecida como Sahel, extensa faixa de terra que se estende do Atlântico ao Mar Vermelho e separa o deserto do Saara das savanas africanas. Segundo ele, desde a metade da década de 2010, grupos terroristas ligados ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda expandiram suas ações em direção aos países do Golfo da Guiné.
De acordo com o Índice de Terrorismo Global de 2026, elaborado pelo Instituto para Economia e Paz, o Sahel concentra mais da metade das mortes decorrentes de ataques terroristas registrados no mundo em 2025. A região abrange dez países: Senegal, Gâmbia, Mauritânia, Guiné, Mali, Burkina Faso, Níger, Chade, Camarões e Nigéria.
Mali, Burkina Faso e Níger, localizados no centro do Sahel, contabilizaram, nas duas últimas décadas, aproximadamente 4,5 mil ataques, que resultaram em 17 mil mortes, conforme os dados do relatório global.
Os três países enfrentaram instabilidade política recente e ao menos um golpe militar cada nos últimos dez anos, além de lidarem com insurgências armadas em áreas de fronteira. O relatório indica que a falta de coordenação entre os países da região tem facilitado a atuação de grupos jihadistas.
“Embora a soberania seja importante em crises internas, aqui é necessária uma resposta multidimensional. Devemos trabalhar igualmente para ter um controle efetivo sobre as fronteiras”, defendeu o presidente senegalês.
Ele reforçou que ameaças à segurança em qualquer país do Sahel afetam diretamente os vizinhos, citando a relação entre Senegal e Mali.
“Não pode haver um perigo de segurança no Mali que não diga respeito ao Senegal, ou vice-versa. É por isso que uma resposta puramente endógena [interna] de um país contra o terrorismo não seria eficaz”, exemplificou, citando o país vizinho.
Segundo Bassirou Diomaye Faye, o combate ao terrorismo demanda resposta militar, colaboração entre as forças de defesa, compartilhamento de informações e operações conjuntas, além de controle rigoroso das fronteiras.
No fórum, o presidente de Serra Leoa, Julius Maada Bio, relacionou a insegurança no continente africano à ausência de representatividade e de alternativas para a juventude. Ele ressaltou que muitos jovens entram em redes de violência por falta de oportunidades oferecidas pelo Estado e defendeu que políticas voltadas à juventude sejam consideradas parte da estratégia nacional de segurança, e não apenas iniciativas de cunho social.
“Extremismo e crime organizado encontram espaço nas falhas de governança e em um crescente e perigoso distanciamento entre cidadãos e o Estado. Grupos extremistas recrutam onde há desespero”, discursou.
Julius Maada Bio, que participou da guerra civil de Serra Leoa entre 1991 e 2002, lembrou as consequências da instabilidade daquele período.
“Perdemos uma década, perdemos vidas”.
O presidente de Serra Leoa enfatizou que a paz vai além da ausência de conflitos armados, referindo-se à necessidade de garantir dignidade e perspectivas para a população.
“Mas sim o som de pessoas vivendo com dignidade e acreditando no próprio futuro”.
Ele endossou a defesa de estabilidade, integração e soberania como pilares para solucionar as questões de segurança no continente.
“Integração não existe sem soberania. Soberania não se sustenta sem estabilidade. Se puxarmos apenas um desses elementos, todo o sistema se desfaz”, declarou.
O chefe de Estado de Serra Leoa também ressaltou a necessidade de autodeterminação dos povos africanos na busca por soluções próprias e autênticas para seus problemas atuais.
“Devem ser soluções africanas, baseadas na realidade africana, não apenas modelos importados adaptados superficialmente”, disse.
O presidente defendeu ainda que parcerias internacionais são bem-vindas, desde que respeitem a autonomia dos países africanos.
“Parcerias são bem-vindas, mas parcerias verdadeiras respeitam a autonomia africana”.
Para Julius Maada Bio, a união entre as nações africanas é essencial para garantir a sobrevivência dos Estados do continente.
O presidente da Mauritânia, Mohamed Cheikh El Ghazouani, indicou que questões como conflitos identitários, falhas de governança, crises institucionais, vulnerabilidade econômica, impactos das mudanças climáticas e o avanço de grupos armados não estatais colocam em risco a coesão social no continente africano.
El Ghazouani reiterou que independência não deve ser confundida com isolamento e que nenhum Estado pode enfrentar sozinho os desafios da globalização, da fragmentação das cadeias produtivas e das transformações geopolíticas.
Para o líder mauritano, a integração regional é indispensável para reduzir a dependência externa, aproveitar as complementaridades econômicas e ampliar a representatividade da África no cenário mundial.
“Ao reduzir dependências externas, reforçar complementaridades regionais e ampliar a voz do continente no cenário internacional, a integração oferece à África meios de defender melhor seus interesses”.
Mohamed Cheikh El Ghazouani defendeu a necessidade de fortalecer a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), que reúne atualmente doze países. Segundo ele, a organização estimula o comércio intra-africano, facilita a circulação de mercadorias, serviços e pessoas e atua como impulsionadora da transformação econômica regional.
Atualmente, a liderança da Cedeao cabe ao presidente de Serra Leoa, Julius Maada Bio, que tem como meta ampliar a área de livre comércio no bloco.
“Tenho de convencer os nossos mais de 400 milhões de cidadãos de que a Cedeao importa e que devemos permanecer unidos, examinando os desafios que levaram os nossos irmãos à decisão de sair”, declarou Maada Bio.
O comentário foi direcionado especialmente aos países Mali, Níger e Burkina Faso, que deixaram a comunidade nos últimos anos, alegando que a Cedeao teria se tornado subordinada a interesses externos.
Nos dois dias de evento, as discussões abrangeram temas como soberania tecnológica e digital, exploração de recursos naturais, processos de transição política e o desenvolvimento da indústria de defesa no continente. As demais nações africanas participaram do fórum por meio de delegações ministeriais.
O repórter acompanhou o evento a convite do Ministério da Integração Africana, Negócios Estrangeiros e Senegaleses no Estrangeiro.