Em um dia de mar tranquilo e céu limpo, mergulhadores equipados com um caiaque acessaram a região marítima próxima à Praia do Pontal, situada na Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, litoral do Rio de Janeiro. A aproximadamente 200 metros da faixa de areia, um dos mergulhadores submergiu e logo retornou à embarcação trazendo uma tartaruga marinha. Em seguida, outro animal da mesma espécie foi capturado utilizando o mesmo método.
O procedimento, observado atentamente por pescadores e banhistas, não apresenta qualquer caráter predatório. Trata-se de uma ação de monitoramento da saúde de tartarugas marinhas, inserida no escopo do Projeto Costão Rochoso, desenvolvido pela organização não governamental Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento. A iniciativa tem como objetivo reunir evidências científicas para subsidiar práticas de preservação e restauração dos costões, que são áreas de interface entre o oceano e o continente.
A execução do projeto conta com o apoio da Petrobras e se propõe a desvendar a origem das tartarugas presentes em Arraial do Cabo, região conhecida por apresentar a maior concentração de tartarugas-verdes em áreas de alimentação marinha do país. Juliana Fonseca, bióloga e cofundadora do projeto, informou que todas as cinco espécies de tartarugas marinhas registradas no Brasil podem ser encontradas em Arraial.
Após o resgate realizado pelos mergulhadores, os animais são conduzidos à faixa de areia para a realização de diversos exames. Segundo Juliana, o procedimento inclui pesagem, medições corporais e coleta de fragmentos de tecido para análise. Esse processo, comparável a uma biópsia, visa determinar a procedência das tartarugas.
"Apesar de ter muitas tartarugas aqui em Arraial, é a área com maior densidade de tartarugas-verdes do Brasil, a gente não sabe onde elas nasceram. Então é isso que a gente está tentando entender agora".
A bióloga explica que, ao identificar a origem desses animais, é possível compreender quais populações dependem das áreas de alimentação locais. Esse conhecimento aprofunda a conexão entre regiões de desova e pontos de alimentação marinha.
Esses répteis, segundo Juliana, possuem uma expectativa de vida que chega a cerca de 75 anos. No litoral de Arraial do Cabo, permanecem por um período médio de dez anos, podendo alguns indivíduos ficar até 25 anos antes de retornarem à área natal para reprodução.
Ela ainda detalha que as tartarugas chegam ao litoral fluminense ainda pequenas e completam seu desenvolvimento nessas águas.
"São juvenis, recém-chegadas na costa. Depois que elas nascem, têm uma fase oceânica que dura, pelo menos, cinco anos. Então, com cerca de 25 centímetros, voltam para a costa. Em Arraial do Cabo, elas crescem e se desenvolvem muito bem, ou seja, engordam aqui com a oferta de alimentos".
O monitoramento realizado pelo projeto abrange a saúde das tartarugas-verdes e também das tartarugas-pente em três praias de Arraial do Cabo — Praia dos Anjos, Praia Grande e Praia do Pontal — além da Ilha de Cabo Frio, todos localizados dentro da reserva marinha. O processo de triagem inclui medições do casco, nadadeiras, cauda e até mesmo das unhas dos animais.
"É um monitoramento para entender como a saúde das tartarugas marinhas está".
Além dos exames físicos, os pesquisadores utilizam registros fotográficos aliados a softwares específicos para identificar individualmente cada tartaruga. O método baseia-se na análise das placas presentes na cabeça dos animais, que possuem formatos e dimensões distintas para cada exemplar, funcionando como uma espécie de impressão digital.
Desde o início do trabalho, em 2018, cerca de 500 tartarugas já foram catalogadas. Dentre essas, 80 tiveram amostras de DNA coletadas para investigação da origem genética, em uma parceria com a Universidade Federal Fluminense. O resultado das análises está previsto para ser divulgado em até seis meses.
Uma outra vertente do Projeto Costão Rochoso busca determinar qual é a distância mínima tolerada pelas tartarugas em relação à presença humana.
"As tartarugas são muito carismáticas, todo mundo quer observar. Por conta disso, infelizmente, a gente tem muitos relatos de assédio, de captura, de pegar a tartaruga e tirar de dentro da água, isso é um estresse muito grande para esses animais".
O método empregado consiste em se aproximar gradualmente do animal e observar a partir de que momento ocorre alteração em seu comportamento. Esse procedimento permite estabelecer uma média da distância mínima suportada pelas tartarugas marinhas.
Com base nesses dados, os pesquisadores pretendem elaborar um guia de boas práticas para observação desses animais, visando orientar turistas não apenas em Arraial do Cabo, mas em diversas regiões do Brasil e do exterior.
Durante os procedimentos de pesagem, medição e coleta de tecidos, é comum a aproximação de banhistas interessados, incluindo crianças, que por vezes questionam o estado de saúde dos animais.
Membros do projeto esclarecem ao público o caráter conservacionista da atividade. Próximo ao local dos procedimentos, uma placa instalada no calçadão da praia avisa claramente que é proibido tocar nos animais marinhos.
A pesquisadora Isabella Ferreira ressalta que para participar das capturas é indispensável formação em áreas como veterinária, biologia ou oceanografia.
Além da qualificação profissional, a realização dessas atividades exige autorizações específicas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, bem como do Projeto Tamar, instituição fundada em 1980 e internacionalmente reconhecida entre as mais bem-sucedidas experiências dedicadas à conservação do ambiente marinho.
Isabella relata que todas as ações — desde a captura, marcação e fotografias — são previamente autorizadas. Ela afirma que, em todas as visitas ao local, a equipe notifica os guardas ambientais e apresenta as documentações exigidas.
Obs: repórter e fotógrafo realizaram a visita como convidados da Petrobras, que atua como parceira do Projeto Costão Rochoso.