Durante agenda oficial em Hannover, na Alemanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o chanceler federal alemão, Friedrich Merz, reuniram-se para debater acordos de cooperação e questões internacionais. Este encontro marca a terceira vez em que ambos dialogam desde 2023. Lula também foi responsável por discursar na abertura da Hannover Messe, considerada a maior feira industrial do mundo, que nesta edição coloca o Brasil em evidência. Além disso, o presidente participou de encontro com empresários brasileiros e alemães, destacando oportunidades no ramo de biocombustíveis.
No decorrer da reunião bilateral, os líderes firmaram pactos em diversas áreas e, após o compromisso, concederam entrevista coletiva à imprensa. Durante a coletiva, ambos comentaram o cenário de instabilidade global devido à guerra no Oriente Médio e manifestaram preocupação com ameaças recentes, entre elas a possibilidade de intervenção militar dos Estados Unidos em Cuba, conforme reiterado pelo presidente norte-americano Donald Trump.
Lula reafirmou que não há justificativa para o conflito atual no Oriente Médio e salientou a ausência de ações efetivas da Organização das Nações Unidas (ONU) em relação à busca por soluções diplomáticas que possam cessar a instabilidade global.
"A prevalência das forças sobre o direito é a mais grave ameaça à paz e à segurança internacional. Estamos profundamente preocupados com os riscos da retomada do conflito no Irã e da escalada no Líbano. A sobrevivência do Estado Palestino e do seu povo segue ameaçada", afirmou Lula.
O presidente brasileiro também mencionou a situação da Ucrânia, ressaltando que a paz desejada parece cada vez mais distante devido ao prolongamento do conflito.
"Entre a ação dos que provocam guerra e a omissão dos que preferem se calar, a ONU está mais uma vez paralisada. Brasil e Alemanha defendem há décadas uma reforma que recupere a legitimidade do Conselho de Segurança", complementou Lula.
Ao ser questionado por veículos de comunicação, Friedrich Merz informou ter solicitado uma sessão extraordinária na ONU para tratar de possíveis medidas. O chanceler lamentou o fechamento do Estreito de Ormuz, no Irã, destacando o impacto econômico da medida, principalmente no setor petrolífero, e os efeitos que transcendem a região do Oriente Médio.
"A reabertura do Estreito de Ormuz tinha sido anunciada e feita, e depois fecharam de novo. Por isso, os preços [do petróleo] aumentaram de novo. Nosso apelo vai para o Irã, de cessar-fogo. Nosso apelo vai também para os EUA para que procurem soluções diplomáticas. As implicações e consequências da guerra não atingem apenas o Oriente Médio, mas pode levar a uma desestabilização política", declarou Merz.
O líder alemão enfatizou que a estabilidade energética mundial depende da resolução imediata desse confronto.
Com relação a Cuba, Friedrich Merz declarou que não há fundamento legal para qualquer intervenção internacional no país caribenho.
"Não vemos que exista algum tipo de perigo para países terceiros, então não sei porque seria necessário haver uma intervenção", afirmou o chanceler, que voltou a defender o caminho diplomático.
"Poder se defender não quer dizer poder interferir em outros países que têm sistemas políticos que não nos agradam", acrescentou Merz.
Lula também reforçou sua rejeição a intervenções unilaterais, sejam em Cuba, Venezuela, Ucrânia, Irã ou Faixa de Gaza.
"Sou contra a falta de respeito à integridade territorial das nações. Eu sou contra qualquer país do mundo se meter a ter ingerência política sobre como uma sociedade deve se organizar ou não", disse Lula.
Além disso, Lula criticou o bloqueio econômico imposto há quase sete décadas pelos Estados Unidos a Cuba.
"Se a gente continuar a acreditar que deve prevalecer a lei do mais forte, isso já aconteceu outras vezes no mundo e não deu certo", completou o presidente brasileiro.
Durante a declaração à imprensa, Lula e Merz celebraram a aprovação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que está programado para entrar em vigor de forma provisória a partir de maio. Merz destacou que o Brasil foi um dos principais defensores da implementação do acordo, ressaltando que ele irá impulsionar a cooperação bilateral nas áreas de tecnologia, inteligência artificial, economia circular, agricultura e energia.
Lula avaliou que a adoção do acordo abrirá espaço para uma parceria mais ampla, abrangendo proteção aos direitos dos trabalhadores, valorização dos direitos humanos e preservação ambiental.
No entanto, o presidente brasileiro criticou mecanismos europeus de cálculo de carbono, alegando que desconsideram as baixas emissões do sistema produtivo nacional, fundamentado em fontes renováveis.
"Um acordo só se sustenta se há equilíbrio nas concessões feitas de parte a parte. Uma série de medidas adotadas pela União Europeia ameaçam, no entanto, desnivelar os pratos dessa balança. É legítimo impulsionar políticas de descarbonização, preservação ambiental e desenvolvimento industrial, mas não é correto adotar métricas que não são fidedignas à realidade nem compatíveis com regras multilaterais", argumentou Lula.
Lula comunicou que os governos de Brasil e Alemanha assinaram novos acordos em áreas como defesa, inteligência artificial, tecnologias quânticas, infraestrutura, economia circular, eficiência energética, bioeconomia e pesquisa oceânica e climática.
A Alemanha, atualmente terceira maior economia mundial, é o quarto principal parceiro comercial do Brasil, com fluxo de aproximadamente 21 bilhões de dólares em bens e serviços, conforme dados de 2025. O país europeu também é um dos maiores investidores diretos no Brasil, com um estoque superior a 40 bilhões de dólares.
Merz demonstrou interesse em ampliar a participação alemã no setor de minerais críticos, que são fundamentais para tecnologias modernas, defesa e para a transição energética, como baterias, painéis solares e turbinas. A oferta desses minerais é considerada sensível por conta dos riscos de escassez e dependência de poucos fornecedores, e o Brasil figura entre os países com maiores reservas dessas matérias-primas.
"Estamos aprofundando nossa relação na área de matéria-prima crítica e isso é uma base central para desenvolvermos as tecnologias do futuro", declarou Merz.
Lula expressou que o objetivo do Brasil é ser mais do que exportador dessas matérias e atuar no desenvolvimento de tecnologia associada aos minerais estratégicos.
"Nossas reservas também nos tornam atores incontornáveis no debate sobre minerais críticos. Queremos atrair cadeias de processamento para o território brasileiro, sem fazer exportações excludentes. A colaboração em setores intensivos em tecnologia é uma prioridade para um país que não quer se limitar a ser um mero exportador de commodities".
Ambos também ressaltaram o potencial de cooperação no segmento de biocombustíveis, destacando sua importância para a descarbonização dos transportes.
"Não existe segurança energética sem diversificação. A recente alta nos preços do petróleo mostra que está mais do que na hora da Europa superar sua resistência ideológica aos biocombustíveis. Eles são uma opção barata, confiável e eficiente para descarbonizar o setor de transporte. Com o conhecimento acumulado ao longo de cinco décadas, o Brasil é capaz de produzir etanol e biodiesel sem comprometer a produção de alimentos e as áreas de florestas", afirmou Lula.
Merz também defendeu investimentos em combustíveis renováveis como forma de diversificar fontes energéticas, citando a presença de um caminhão movido a biocombustível no estande da feira de Hannover e reconhecendo o avanço da tecnologia brasileira na área.
"Tem um caminhão no stand da feira [de Hannover] movido a biocombustível. Sabemos que, no Brasil, essa tecnologia avançou muito e demonstra que nós podemos aprender com o Brasil também", concluiu o chanceler alemão.